Educação no mundo

Educação no Brasil comparada com outros países: onde estamos atrás, onde empatamos e onde estamos à frente

A manchete para no fim da fila; a tabela continua depois dela. Os números com fonte e ano, separados em três grupos — e os dois indicadores em que o Brasil está à frente medem justamente o que acontece entre professor e aluno.

28 de agosto de 2026 · 9 min

Toda vez que sai um ranking internacional, a manchete é a mesma: o Brasil aparece no fim da fila. O que quase nunca aparece é o resto da tabela. Os mesmos relatórios que colocam o país atrás em aprendizagem mostram que, em alguns indicadores, o Brasil empata com a média dos países ricos, e que em pelo menos dois ele está à frente. Esses dois, por coincidência ou não, são justamente os que medem o que acontece entre o professor e o aluno.

Este texto reúne os números que existem, com fonte e ano, e separa três grupos: onde o Brasil está atrás, onde está no mesmo lugar e onde está na frente.

O quadro geral, em uma tabela

IndicadorBrasilMédia OCDE
Matemática (Pisa 2022)379 pontos472 pontos
Leitura (Pisa 2022)410 pontos476 pontos
Ciências (Pisa 2022)403 pontos485 pontos
Gasto público por aluno, ensino fundamentalUS$ 3,8 milUS$ 12,4 mil
Alunos que já repetiram ao menos uma vez22%9%
Diferença entre os 25% mais e menos favorecidos77 pontos93 pontos
Aluno diz que o professor se interessa por cada um74%63%
Aluno sente que pertence à escola76%75%

Pisa 2022 (OCDE, divulgado em dezembro de 2023) e Education at a Glance 2025 (OCDE, lançado no Brasil pelo Inep em setembro de 2025). O Pisa 2022 avaliou cerca de 690 mil estudantes de 15 anos em 81 países e economias.

Onde o Brasil está atrás

Dinheiro por aluno na educação básica

É a diferença mais brutal da lista e a que explica boa parte das outras. O Brasil investe cerca de US$ 3,8 mil por aluno do ensino fundamental, contra US$ 12,4 mil na média da OCDE. Menos de um terço. O país fica abaixo de vizinhos como Chile e Costa Rica nesse indicador.

Curiosamente, no ensino superior público a conta se inverte: cerca de US$ 15,6 mil por estudante, patamar parecido com o da OCDE e o da União Europeia. Não é que o Brasil não gaste com educação. É que ele gasta muito pouco na etapa em que estão 46 milhões de pessoas.

Quantos alunos chegam ao mínimo

O Pisa organiza os resultados em níveis. O nível 2 é o corte que a OCDE chama de básico: abaixo dele, o estudante não consegue, sem instrução direta, reconhecer como uma situação simples pode ser representada matematicamente.

  • Matemática: 27% dos alunos brasileiros atingem o nível 2 ou mais. Média da OCDE: 69%.
  • Leitura: 50% no Brasil, 74% na OCDE.
  • Ciências: 45% no Brasil, 76% na OCDE.

No topo, a distância é ainda maior: 1% dos alunos brasileiros chega aos níveis 5 ou 6 em matemática, contra 9% na média da OCDE e 41% em Singapura.

Repetência

22% dos alunos brasileiros de 15 anos já repetiram pelo menos uma vez, contra 9% na média da OCDE. A OCDE registra que a repetência é menos frequente nos sistemas de melhor desempenho. É um dado que costuma passar em branco na conversa sobre resultado, mas que muda a composição inteira de uma turma.

Condições de trabalho na sala

Aqui os números descrevem o dia do professor. No Brasil, 32% dos alunos dizem que não conseguem trabalhar bem na maioria das aulas de matemática (média OCDE: 23%), 38% dizem que não escutam o que o professor fala (30%) e 45% se distraem usando aparelhos digitais (30%), com outros 40% se distraindo por causa dos colegas que usam (25%). O próprio relatório observa que os alunos relatam menos distração digital onde o uso de celular na escola é proibido, tema que já discutimos em celular na sala de aula.

Fora da sala, a diferença é de outra natureza: 19% dos alunos brasileiros dizem não se sentir seguros no caminho até a escola, contra 8% na média da OCDE.

Onde o Brasil empata

Estes três dados costumam surpreender quem só viu a manchete, porque contrariam a ideia de que a escola brasileira é desigual em tudo e o resto do mundo não.

  • Peso do nível socioeconômico. No Brasil, a origem social explica 15% da variação no desempenho em matemática. Na média da OCDE, também 15%.
  • Distância entre ricos e pobres. Os 25% mais favorecidos superam os 25% menos favorecidos por 77 pontos no Brasil, contra 93 pontos na média da OCDE. A distância é menor aqui, o que diz menos sobre justiça e mais sobre o teto: quando o topo também rende pouco, a distância encolhe por cima.
  • Alunos resilientes. 10% dos estudantes brasileiros em desvantagem social ficam no quarto superior de desempenho do próprio país. Na média da OCDE, também 10%.

Onde o Brasil está na frente

Os dois indicadores em que o Brasil supera a média da OCDE no Pisa 2022 são, significativamente, os que medem a relação humana dentro da escola.

  • 74% dos alunos brasileiros dizem que, na maioria das aulas de matemática, o professor demonstra interesse pela aprendizagem de cada aluno. Na média da OCDE, 63%. São onze pontos percentuais acima, num país que gasta um terço por aluno.
  • 76% sentem que pertencem à escola, contra 75% na média da OCDE. E 72% dizem que o professor dá ajuda extra quando precisam, contra 70%.

Vale escrever a conclusão sem rodeio, porque ela raramente é dita: nos indicadores que dependem de dinheiro, tempo e política pública, o Brasil está muito atrás. Nos que dependem de quem está na frente da turma, ele está à frente da média dos países ricos. O problema brasileiro, pelos dados da própria OCDE, não é falta de professor dedicado.

O dado que quase nunca aparece

Existe uma leitura do Pisa que muda a interpretação de todas as outras e que a OCDE publica junto com o resto. O teste é aplicado a quem tem 15 anos e está na escola. Em 2003, 45% dos jovens brasileiros de 15 anos não estavam representados entre os que fizeram a prova. Em 2022, esse número caiu para 24%.

Quando se olha para a população inteira de 15 anos, e não só para quem sentou na prova, a proporção de jovens brasileiros acima do nível básico em matemática subiu de 14% em 2003 para 20% em 2022. A média da prova ficou parada, mas o número absoluto de jovens que alcançam o básico cresceu, porque o país passou a manter na escola gente que antes não chegava lá. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e quem só lê a média perde metade da história.

A escala brasileira, que também é uma explicação

Comparar o Brasil com a Finlândia ou com a Estônia esbarra num detalhe de tamanho. Segundo o Censo Escolar 2025, do Inep, a educação básica brasileira tem 46 milhões de matrículas, 178,8 mil escolas e 2,4 milhões de professores, espalhados por um território continental e por redes municipais, estaduais e privadas com regras próprias. Do total de matrículas, 10,1 milhões são em tempo integral.

A Finlândia inteira tem menos habitantes que a cidade de São Paulo. Isso não anula a comparação, mas ajuda a entender por que uma política que funciona lá não é copiável em bloco. Escrevemos sobre isso em educação na Finlândia: o que é verdade e o que é mito.

Por lei, quanto tempo o aluno brasileiro fica na escola

A LDB estabelece o mínimo de 200 dias letivos por ano e 800 horas no ensino fundamental. No ensino médio o mínimo passou a 1.000 horas anuais, com a Lei 14.945/2024, e o Plano Nacional de Educação aponta ampliação progressiva para 1.400 horas. Países como Austrália e Dinamarca chegam a oferecer cerca de 50% mais tempo de aula no fundamental do que o mínimo brasileiro.

Vale um cuidado com essa comparação, e a OCDE mesma o registra: o relatório conta apenas aulas obrigatórias. Em vários países existe uma camada grande de atividade fora do horário obrigatório que não entra na conta, o que faz a diferença real ser maior do que a tabela mostra.

O que a comparação não mede

Nenhum desses indicadores captura a professora que aprendeu a alfabetizar sem material, o professor que atende cinco séries na mesma sala numa escola do campo, ou a rede que manteve a merenda funcionando durante a pandemia. Ranking internacional mede o que é comparável entre 81 sistemas, e o que é comparável é sempre uma fatia estreita.

A utilidade da comparação é outra: ela desmonta explicações fáceis. Quando o mesmo relatório mostra o país com um terço do dinheiro por aluno e, ao mesmo tempo, acima da média em atenção do professor, fica difícil sustentar que o problema é falta de esforço de quem dá aula.

De onde vieram estes números

Desempenho, equidade, clima escolar e repetência: Pisa 2022, OCDE, ficha de resultados do Brasil, publicada em 5 de dezembro de 2023. Gasto por aluno: Education at a Glance 2025, OCDE, lançado no Brasil pelo Inep em setembro de 2025. Matrículas, escolas e professores: Censo Escolar 2025, Inep. Carga horária: LDB (Lei 9.394/1996) e Lei 14.945/2024. Os próximos resultados internacionais saem em 8 de setembro de 2026, com o Pisa 2025, e esta página será atualizada quando isso acontecer. Consulta direta às fontes: ficha do Brasil no Pisa 2022 e Inep.

E o que isso muda na sua segunda-feira

Pouca coisa, se a leitura parar na indignação. Alguma coisa, se ela virar argumento na reunião pedagógica: os dados mostram que o gargalo brasileiro está em tempo, recursos e continuidade, não em dedicação docente. Esse é um bom ponto de partida para discutir o que a sua escola pode controlar, como a coerência do que se ensina ao longo do ano.

É nessa parte que o ProfeAI entra: ele monta o rascunho do planejamento a partir das habilidades da sua turma e guarda o que já foi trabalhado, para que a continuidade não dependa de memória nem de refazer tudo em toda troca de bimestre. Você revisa, ajusta e decide. Para começar pelo básico, veja como montar o planejamento anual e como fazer um plano de aula.

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