Revisado por Isabella Ruas, educadora e cocriadora do ProfeAI.
17 de agosto de 2026 · 10 min de leitura
Resposta curta: o parecer da Educação Infantil descreve percurso, e a lei proíbe usá-lo para promover ou reter. Ele fica bom quando parte do que foi observado, organizado pelos campos de experiência, e fica ruim quando vira lista de adjetivos sobre a criança.
O que a lei realmente exige
Dois trechos da LDB (Lei nº 9.394/1996, art. 31) governam o parecer, e vale conhecer os dois porque eles puxam em direções diferentes:
- Inciso I: a avaliação se dá mediante acompanhamento e registro do desenvolvimento das crianças, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao Ensino Fundamental.
- Inciso V: a escola deve expedir documentação que permita atestar os processos de desenvolvimento e aprendizagem da criança.
Ou seja: não se pode transformar o parecer em boletim disfarçado, e ao mesmo tempo não se pode escrever qualquer coisa. Ele é documento, e precisa sustentar o que afirma.
A periodicidade e o formato são definidos pela rede ou pela escola. A LDB não fixa intervalo nem modelo, então confirme o padrão da sua antes de mudar a forma de escrever.
O problema do adjetivo
Quase todo parecer difícil de escrever começa pelo adjetivo. "É carinhosa", "é agitado", "é tímida", "é muito inteligente". Três razões para evitá-los:
- Não se sustentam. Se a família perguntar "por que agitado?", não há o que mostrar. Uma cena tem data e contexto; um adjetivo, não.
- Descrevem a criança, não o percurso. O documento é sobre o que ela viveu e aprendeu, não sobre quem ela é.
- Grudam. O rótulo escrito aos 3 anos chega ao professor do ano seguinte, e às vezes ao do Fundamental, antes da criança.
A troca é simples e muda o texto inteiro: substitua o adjetivo pela cena.
| Em vez de | Escreva |
|---|---|
| É muito tímida. | Nas rodas de conversa, participa observando. Em junho, contou para o grupo pequeno como cuidou do cachorro em casa, com apoio da professora. |
| É agitado. | Circula bastante pelos cantos da sala. Permanece por mais tempo nas propostas com movimento, como o circuito com cordas, e mais brevemente nas de mesa. |
| Não se concentra. | Sustenta a atenção por cerca de dez minutos nas propostas de sua escolha e menos tempo nas propostas dirigidas. |
Escreva pelos campos de experiência
Se o planejamento é por campo, o parecer também deveria ser: é o mesmo vocabulário, e isso reduz o trabalho pela metade. Os cinco campos e o que eles pedem que você olhe estão em BNCC na Educação Infantil. Uma ordem que funciona:
- O eu, o outro e o nós: convivência, conflito, autonomia no cuidado de si.
- Corpo, gestos e movimentos: como se move, como usa as mãos, como ocupa o espaço.
- Traços, sons, cores e formas: o que produz, com quais materiais.
- Escuta, fala, pensamento e imaginação: como conta, pergunta, brinca de faz de conta, se relaciona com a escrita.
- Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações: como explora, compara, conta, observa mudanças.
Não é obrigatório ter parágrafo para cada campo em toda criança. É melhor ter três campos bem descritos, com cena, do que cinco parágrafos genéricos.
Três trechos prontos para adaptar
Use como forma, não como texto. Troque as cenas pelas suas: o valor do parecer está justamente em ser daquela criança.
Convivência. Ao longo do semestre, [Nome] passou a resolver mais conflitos com palavras. Em maio, buscava a professora para intermediar as disputas por brinquedo; em agosto, foi observada propondo revezamento aos colegas na casinha, e aceitou esperar sua vez em duas dessas situações.
Linguagem. [Nome] participa das rodas de história com atenção e costuma antecipar o que vai acontecer, apoiando-se nas ilustrações. Recontou a história dos três porquinhos para o grupo, mantendo a ordem dos acontecimentos e criando um final diferente.
Exploração. Nas propostas com água e recipientes, [Nome] repetiu várias vezes o mesmo movimento de encher e esvaziar, e passou a comentar qual copo "cabe mais". Começa a comparar quantidades a partir da própria experiência, sem uso de número.
Como não deixar para novembro
O parecer só é penoso quando é escrito de memória. O que resolve é registrar pouco e com frequência, durante a semana, no formato que couber na sua rotina: um caderno, o celular, um post-it colado na agenda. Três linhas por criança a cada quinze dias já sustentam um parecer inteiro, e a diferença aparece na hora de escrever.
Vale a mesma lógica dos anos iniciais, onde o registro do dia a dia alimenta o texto final, tratada em relatório individual do aluno sem levar trabalho para casa. Se você precisa de um ponto de partida com a estrutura já montada, há um modelo de parecer descritivo pronto para preencher.
Um lembrete que evita problema
O parecer é documento escolar e pode ser lido pela família, pela coordenação e pela rede. Duas cautelas que poupam desgaste: não registre suspeita de diagnóstico, porque quem diagnostica é profissional habilitado, e evite comparar a criança com colegas ou com uma expectativa de idade fechada. Descreva o percurso dela, que é o que a lei pede e o que a família quer ler.
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